Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora
Domingo, 16 de Outubro de 2011
Defender ou Globalizar

Dez anos passaram, após a primeira tentativa de adaptação, de um dos barracões de sargaço, existente no lugar do Caído em Vila Praia de Âncora, a habitação.

Embora essa ampliação tivesse sido embargada, não foi feita a reposição da construção. Agora, construíram uma rampa em terra numa área integrada na rede Natura e reserva Ecológica, para criar parqueamento automóvel, e por incrível que pareça em terrenos do domínio público marítimo. Parece que ninguém vê!....

 

Porque será?

 A legislação parece passar ao lado. Mas se a legislação não é para cumprir, então não é necessário inventá-la, isso dá muito trabalho aos deputados e origina dualidade de critérios.

Mas, quando passo por aqueles "caminhos de Santiago do litoral" entre Caído e Moledo, que devido à riqueza do valor do seu "património vegetal", onde encontramos várias espécies endémicas, foi uma área integrada na rede Natura e reserva Ecológica e agora julgo ser domínio Público Marítimo, não consigo compreender como é possível encontrar a obra já referida e caminhando de Sul para Norte, logo a seguir a estes barracões, aparece mais uma rampa executada à vários anos e que é utilizada como acesso a um terreno que serve de parque automóvel. Também existe uma construção, cujas redes de águas residuais são lançadas para o caminho.

 

Mais 20m à frente, surge um amontoado de latas, agora com uma rolote que parece ser o dormitório de algum guarda, dessa lixeira.

Passamos pela capela de Stº. Isidoro, e nas proximidades do cruzeiro, deparamos com um amontoado de lixo.

 

Uns metros mais à frente aparece um portão metálico, que não liga a nada, mas não deixa de ser uma construção em plena rede Natura e domínio público marítimo.

Parece que ninguém quer ver o que se passa. E enquanto isso, o esperto saloio que para lá anda, apoiado não se sabe por quem, já criou uma plataforma referente a um piso de rés do chão, isto tudo em plena rede Natura.

E, no topo Norte, junto do portinho de sargaço de Moledo, foi executado um loteamento de 19 habitações, em condomínio fechado, e um arruamento sobre a duna. Esta construção parece ter sido autorizado pelo Ministério do ambiente, tendo destruído parte da rede Natura.

Pelo referido compreende-se que estamos perante equipas de técnicos que desconhecem as suas raízes, e apostam friamente na venda da nossa identidade à dita globalização, porque o país já está a ser vendido.

No entanto se não sabem, eu lembrarei que estamos perante um património natural, classificado como rede Natural2000, por uma equipa de professores da faculdade de Ciências do Porto. Esta classificação deu-se por decisão da comissão europeia, que determinou que os estados membros enviassem à Comissão a lista de sítios da rede Natura2000 proposto (A rede Natura 2000 é uma rede de áreas designadas para conservar os habitats e as espécies selvagens raras, ameaçadas e vulneráveis na União Europeia).

Além do já referido, este local está integrado entre dois portos de sargaço, no topo Sul do portinho de Caído em Vila Praia de Âncora ( que também é um importante centro do quartenário- Conhecida por estação arqueológica do Caído) e no topo Norte portinho de Moledo, onde durante centenas de anos, os lavradores dessa corda litoral ( Vale do Âncora, Moledo e até Vale do Coura, foram fazendo a história agro- marítima.

 

Mas, entretanto apareceram os vende pátrias nacionais e locais, e esqueceram as memórias e as saudades e o duro trabalho que se realizou, mas também o convívio, alegrias e tristezas dos simples actos do sargaceiro, que "o actor da ociosidade" teima em destruir para tentar eliminar a historia daqueles que nos deixaram uma pesada herança de "barras de ouro", que foi desbaratado após o 25 de Abril.

No entanto, esta actividade agro- maritima, começa a ser referida no foral de D. Dinis em 1308 o que demonstra o seu peso histórico, pois os lavradores do litoral utilizavam esta actividade subsidiária da lavoura, feita pelo agregado familiar rural, para consumo próprio, recebendo ao mesmo tempo a acção tonificante da praia.

Agora que se fala muito na globalização, devemos ter presente a necessidade dum conhecimento das nossas raízes culturais e a preocupação de as defendermos para que a nossa identidade cultural não se perca. Perder estas raízes culturais, quando se fala em "aldeia global" é perigoso para qualquer País, principalmente sendo deficitário culturalmente. E embora, uns mais do que outros, todos temos culpas. Se os valores culturais se perderem, estaremos a caminhar, para uma integração na aldeia global, pelo que iremos estar a penalizar a nossas raízes culturais e um ecomuseu que durante centenas de anos permitiu documentar historicamente esta zona pela actividade agro -marítima levada a efeito nesse local e que ainda hoje se faz.

Defender este local, implica a preservação e valorização duma arquitectura regional, dos usos, costumes e tradições locais, e de uma política ambiental a fim de que possamos participar na globalização mas conscientes da nossa identidade cultural. Será esta identidade cultural que possuímos, que nos vai diferenciar de outros povos.

No entanto, a enfermidade cultural que se faz sentir, e as constantes tentativas de adulteração deste espaço, faz temer a destruição de um "nicho ecológico" e a etnologia de um povo que não tem vergonha das suas origens, por muito humildes que sejam. São estas tradições culturais, que no futuro irão diferenciar o turismo qualificado ou não.

 

Tendo em consideração que é por aqui que passa o caminho de Santiago do litoral, por onde passou o rei de Portugal D. Manuel I em 1502, e onde se localiza a Capela de S. Isidoro, construção muito antiga, que só se sabe que já existia no (séc.XIV), e que era a sede de uma irmandade que unia 14 freguesias deste concelho e do de Viana, cujos estatutos ainda existentes foram manuscritos em 1600.

Parece-me que não exagero ao referir que estamos num local, em que a cultura Galaico-portuguesa se começou a interligar, pelo facto da inter-acção havida, durante séculos neste corredor litoral, entre as duas comunidades divididas pelo rio Minho.

 

Portanto, o que está a ser feito neste espaço "Caído - Moledo" é a tentativa de romper com um passado. Manter esta tradição e esse espaço é uma mais valia para o concelho de Caminha, pois estamos a defender a história de Portugal, os caminhos de Santiago, um espaço etno-ambiental integrado na rede Natura, e uma actividade agro-maritima com centenas de anos.

 

É certo que isso não dá "dinheiro volátil", no entanto garante a manutenção da identidade de um povo e a possibilidade de se candidatar, a "apanha do sargaço", a património imaterial da UNESCO, e os caminhos de Santiago litoral, e todo o seu património envolvente a esse percurso "Rotas de Santiago de Compostela" também, a património Mundial da UNESCO.

 

 

Joaquim Vasconcelos



publicado por nuceartes às 10:07
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1 comentário:
De AACS VIANA a 30 de Janeiro de 2012 às 13:08
Parabens pelo artigo


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