Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora
Domingo, 29 de Janeiro de 2012
Fortificação castreja vandalizada

A Cividade Ancora /Afife, foi selvaticamente violada. Foram abatidas algumas árvores, e aberto um caminho que atravessa a referida fortificação castreja, para dar acesso a tractores. Estes trabalhos danificaram algumas estruturas da referida fortificação.


Embora, durante os próximos meses, possivelmente, vá ser feita uma fiscalização serrada, por populares, não nos devemos esquecer que tem sido um monumento, completamente votada ao abandono, "assaltado" por uma vegetação infestante, e também por actos de vandalismo tendo ainda recentemente sido implantada uma antena de comunicações nas suas imediações.

Trata-se de mais um crime de destruição da nossa identidade patrimonial. Embora neste país a culpa morra "sempre solteira", parece-me que aqui os grandes responsáveis são as entidades que gerem estas áreas, (Câmara Municipal de Viana do Castelo e de Caminha) e também a que gere património (IGESPAR- Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico).

Durante mais de duas décadas, associações e particulares tem vindo alertar para o abandono deste património. Contactaram as Câmaras, redigiram crónicas em diversos jornais, no intuito de procurar, que aquelas entidades, sentissem um pouco de vergonha e se sentassem à mesa, para planearem uma limpeza conjunta, de forma a tornar visitável aquele Monumento.

A Cividade de Afife-Ancora é um dos povoados mais emblemáticos da Cultura Castreja sendo daqui, para além de outro espólio importante, a bonita guarnição da porta, em granito constituída pelas ombreiras e encimada pela padieira, decorados com o extraordinário cordoame que Martins Sarmento levou para o museu de Guimarães, que ostenta o seu nome,

Não podemos esquecer que embora se encontre num estado de abandono total, aquela fortificação castreja, referenciada e aconselhada a ser visitada em diversos roteiros turísticos de promoção do concelho e da região, era uma estação arqueológica da cultura castreja do Noroeste Ibérico, que conjuntamente com outros povoados mais pequenos, controlava a linha de costa entre Santo Izidoro (Moledo) e Montedor (Carreço), os vales e estuários do Âncora e de Afife e o acesso ao estanho e ouro da serra de Arga.

As dimensões e localização, assim como o planeamento urbano (três linhas de muralhas, casas circulares e ovais, condutas de escoamento de águas, pequenos sepulcros em forma de cista, etc.), da Cividade de Afife-Ancora, permitem enquadrá-la no grupo dos grandes povoados castrejos proto-urbanos, da fase mais recente da Idade do Ferro. Embora as suas origens remontem aos séculos VI-VII a C. a sua maior ocupação e importância supõem-se ter ocorrido por volta dos séculos II-I a. C., prolongando-se pela fase inicial do período romano.

Contactadas as diversas entidades responsáveis, referem não ter verbas para a limpeza e tratamento desse património, no entanto vemos obras para que foram disponibilizados verbas que até podiam esperar, como é o caso das "ciclovias". Para essas conseguiram verbas avultadas, que deram origem a infra-estruturas que destruíram património ambiental integrado na "rede natura", e também à degradação da estação arqueológica do Forte do Cão, com o lançamento de águas residuais através de um colector de descarga de uma estação de bombagem. Até parece que existe uma intenção generalizada de destruição do património existente no Vale do Âncora.

Portanto, parece-me que continuamos a ser geridos por um grupo de pessoas a quem lhes falta uma visão de planeamento global, um desconhecimento das nossas raízes culturais, bem como uma série de regras básicas de implementação de um turismo encabeçado pela nossa identidade cultural.

Trata-se de uma imagem da região verdadeiramente impensável e incompreensível, que no mínimo deveria levar à responsabilização de quem tem a incumbência de tratar do Património Cultural. Se porventura essas pessoas tivessem vergonha e brio, enquanto profissionais e representantes da defesa e salvaguarda dos bens públicos, deviam a todo o custo impor uma beneficiação mínima desse património.


É deveras lamentável, em pleno século XXI, a poucas dezenas de quilómetros da Capital Europeia da Cultura onde se localiza o museu (Martins Sarmento), que tem expostas, peças desta estação arqueológica, que o local esteja a ser sujeito às maiores investidas de destruição.

Este comportamento sistemático de desleixo e que corre mundo através dos inúmeros turistas que visitam o espaço em causa, remetidos pelos roteiros turísticos e museus onde se encontra o espólio desta estação arqueológica, é apontado, pelo turismo cultural, como um dos aspectos mais negativos da imagem da região.

Dentro do tão apregoado desenvolvimento sustentável e vida saudável depara-se, infelizmente, com este cenário condenável, imagem fidedigna da atenção dispensada e da forma como se trata o Património Cultural nestes concelhos do Alto Minho.

Agora temos de aguentar, a ouvir uns a falarem sem fazerem o que devem e outros a procurar tirar partido da falta de manutenção destas situações lesivas a um património colectivo, cuja preservação urge, senão queremos assistir à continuidade do definhamento da nossa identidade cultural.

Diverso espólio recolhido por Martins Sarmento, quando passou por este local em 1879, foi encaminhado para o museu com o seu nome, em Guimarães, que por sinal este ano até é a Capital Europeia da Cultura. Talvez, quem visite esse mesmo museu, procure dar um "salto" a este local, mas não tenho dúvida da análise que fará dos portugueses, e desta área turística.

Parece-me que teria sido interessante, que os responsáveis da "capital europeia da cultura", tivessem aproveitado o evento que decorre em Guimarães, para encaminhar alguns desses visitantes a conhecerem o nosso património, donde foram retiradas muitas daquelas peças que estão expostas no museu Martins Sarmento. De facto, a Cividade se estivesse minimamente tratada seria um interessante local a visitar. Devemos ter certos espaços preparados para mostrar ao turismo cultural.


Deixem-se de preocupar se é de Caminha ou de Viana do Castelo, de Afife ou Âncora. Todos sabemos que é Português, e julgo que isso é suficiente.

É certo que estamos numa zona em que a pressão urbanística se começa a fazer sentir, e essencialmente as Câmaras não parecem estar interessadas em criar uma figura de protecção e consequentemente arranjar uma pequena verba para a limpeza desse património, como já fizeram com o dólmen da Barrosa em Vila Praia de Âncora.

 

Joaquim Vasconcelos



publicado por nuceartes às 16:17
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