Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora
Quinta-feira, 25 de Outubro de 2007
Jazz do Penico
 
Instrumento Musical Popular de Vila Praia de Âncora
 
1 – Introdução histórica
 
Vila Praia de Âncora, a freguesia mais populosa do Concelho de Caminha, 4.688 habitantes pelo censo de 2001, elevada à categoria de vila em 8 de Julho de 1924, teve até essa data, uma outra designação: Santa Marinha de Gontinhães foi até então o seu nome. O topónimo Guntilanes aparece mencionado em documentos a partir do século X e é referido nas inquirições de D. Afonso III de 1258.
Terra de agricultores, mas também de ferreiros, canteiros e carpinteiros, tem no início do século XIX uma importante alteração com o estabelecimento de uma colónia de pescadores galegos no lugar da Lagarteira, nas mediações da praia. Este conjunto de famílias depressa se multiplicou alterando radicalmente o cenário natural desta parte da freguesia com a construção do casario para a sua habitação.

Por meados do século XIX, dá-se uma alteração importante nos hábitos dos portugueses que normalmente faziam férias, trocando as estâncias termais. Para onde tradicionalmente iam, pela praia e banhos de mar.
Tudo se alterou na parte baixa da freguesia com a praia a ser o motor económico e a conduzir Gontinhães à urbanidade. Nas ruas principais da “Praia d’âncora”, nome que começa a designar o litoral da freguesia mais endinheirados mandam construir num estilo arquitectónico conhecido por colonial brasileiro.

Em 6 de Agosto de 1882 é inaugurada a linha-férrea de Viana até Valença. A “Praia d' Âncora” é local de paragem obrigatória, o que determinará um progresso mais acelerado.
 
 
2- O ambiente Musical e Popular
 
As tradições musicais em Vila Praia de Âncora são muitas ricas. A confirmá--lo, está o facto de, em meados do século XIX, ser criada por um grupo de “curiosos” uma filarmónica que, em 26 de Novembro de 1884, por razões de natureza política, a se desmembra em duas, passando Gontinhães a dispor, a partir dessa data, de duas bandas: A Banda Velha e a Banda Nova.

A existência de duas filarmónicas quer significar que o ensino da música se generaliza entre a juventude masculina da freguesia e até das freguesias vizinhas, casos de Âncora e Moledo.
Pelos anos trinta do século vinte aparecem os grupos de Jazz para animar os bailes das Sociedades de Recreio e as festas profanas ligadas aos Santos Populares. Em 1958 é fundado o Orfeão de Vila Praia de Âncora com um grupo coral a quatro vozes, depois de uma experiência muito breve emm 1926, quando Francisco Fão cria o primeiro Orfeão.
Na década de 70 do século passado, são criados dois ranchos folclóricos: O Grupo de Danças e Cantares do Orfeão de Vila Praia de âncora e o Etnográfico de Vila Praia de Âncora, que, este ano, comemora trinta anos de actividade. Mais recentemente, 15 de Outubro de 1988, é fundada a Academia de Música Fernandes Fão. 
Como acontece por todo o Minho, em Vila Praia de Âncora e arredores, realizam-se inúmeras romarias. Algumas delas já não suscitam o entusiasmo de outros tempos, outras, como a Romaria da Senhora da Bonança, que teve o seu início na década de 80 do século XIX, tem vindo a afirmar-se como a festa mais importante do Vale do Âncora e até do Concelho de Caminha. Romarias como: A Senhora da Cabeça em Soutelo, Santo Amaro da Bouça em Riba de Âncora, S.Brás na veiga com o mesmo nome junto ao rio Âncora e Santo Isidoro junto ao mar, nos limites com Moledo, no passado muito populares, têm vindo a perder importância, com destaque para esta última.

Todas estas romarias era, no passado, muito frequentadas por romeiros vindos da Galiza (Espanha) e, no caso de Santo Isidoro, onde se veneram também S. Tiago e S. Ovídeo, a presença galega era muito numerosa no dia da festa a 25 de Julho, dia de S. Tiago. A Capela, que remota ao século XVII, foi sede da confraria de Santo Isidoro, a mais difundida no termo de Caminha.
A festa, que noutros tempos era muito animada e de um encanto singular e pitoresco, era organizada pelos lavradores, sargaceiros e poveiros, que na área envolvente à capela desenvolviam a sua labuta.
No dia da festa, os actos religiosos eram vividos com muita fé e devoção, mas depois, tudo se transformava e a romaria adquiria um carácter essencialmente profano, o toque das concertinas vibrava por todo o lado e o baile acontecia com viras e agarradas pela tarde fora.
O facto de esta romaria ser muito frequentada por galegos e pela forma efusiva e alegre com que eles festejavam e festejam os seus padroeiros, leva a supor que viessem munidos de instrumentos musicais populares para animar a festa. Um desses instrumentos era com certeza o Charrasco – Instrumento musical popular galego da região de Pontevedra.
 
 
3 – Nascimento do Jazz do Penico
 
O intercâmbio cultural com a comunidade galega resultou da sua participação na Romaria de santo Isidoro, influenciou deveras os “Gontinhenses” e foi de molde a que alguns dos nossos lavradores se deixassem cativar pela singularidade do instrumento galego – o charrasco – e construíssem um muito semelhante, que mais tarde vêm a baptizar de Jazz do Penico, influenciados, no que respeita ao nome, pelo jazz americano que na época – anos trinta – fazia moda por toda a Europa.
O Jazz do Penico torna-se, assim, num instrumento musical popular de referência nas romarias mais populares do Vale do Âncora e em festas de passatempo individual.

É igualmente utilizado no Carnaval, devido ao seu aspecto irreverente e atrevido. Os cantos tradicionais de peditório pelas Janeiras e pelos Reis justificam igualmente a presença do Jazz do Penico.
Tudo isto acontece pelos anos trinta do século XX e os protagonistas são os lavradores e ribeirinhos da parte alta da freguesia. Na década seguinte, os reiseiros da Vila oriundos de famílias muito humildes desenvolvem um instrumento inspirado no Jazz do penico está apenas ligada aos cantos de peditório pelos Reis.
 
 
 
 4 – Descrição e forma de tocar o Jazz do Penico
 
O Jazz do Penico é um instrumento musical popular da classe dos idiofones, ou seja, um instrumento cujo som é obtido pela vibração de todo o corpo instrumental.
Consta de uma haste de madeira com aproximadamente 150 cm; na parte superior tem um bastidor ou caixilho com as soalhas e campainhas, um pouco mais abaixo as cordas de arame, quatro ou cinco a passar por cima de um penico de zinco esmaltado, utilizado no jazz para produzir a ressonância das cordas.

O jazz é tocado agarrando a haste com a mão esquerda, o pau estirado está na mão direita, o instrumento é percutido contra o solo fazendo vibrar as soalhas e campainhas. No instante imediato, as cordas são golpeadas, dando origem a outra sonoridade. É da combinação correcta e variada destes dois movimentos – o percutivo e fricativo – que este instrumento revela as suas capacidades sonoras e de acompanhamento. A versão Jazz-Band difere do Jazz do Penico por ter, como câmara de ressonância das cordas, uma lata, que antes havia sido uma embalagem das chouriças, e, na parte superior, um arco de pipa de média dimensão para aplicar as soalhas.
A forma de o tocar é idêntica à do Jazz do Penico. Este instrumento chegou até aos nossos dias pelas mãos dos reiseiros da Vila, tocadores de Jazz-Band que, ainda há três anos, saíram à rua a cantar os Reis munidos deste instrumento popular. 
Os cantos de peditório pelas Janeiras e pelos Reis, para além da tradição, tinham como principal objectivo a angariação de algum dinheiro e a esperança de serem presenteados com alguns chouriços de carne em casas já referenciadas de anteriores reisadas. No fim de cada noitada, o dinheiro era contado e religiosamente repartido por todos.
Os chouriços eram guardados pela pessoa mais velha do grupo e, na festa de Santo Amaro da Bouça em Riba de Âncora, que se realiza no 3º Domingo de Janeiro, todo o grupo se deslocava ao local da Romaria e aí era realizado o “banquete”, conforme a tradição.
 
 
5 – Conclusão
 
No Verão de 2005, foi publicado um pequeno livro intitulado “Jazz do Penico - Instrumento Musical Popular – que constituiu uma referência para este meu trabalho. Mais recentemente, num encontro nacional de tocadores de concertina realizado em Monção, fui encontrar um tocador de um instrumento muito próximo do Jazz do Penico.
Este tocador, de seu nome “Dominique”, natural da freguesia de Alvarães, concelho de Viana do Castelo, chama-lhe “Chincalhos” e há vinte anos que o exibe em festas, ora num grupo folclórico, ora integrando um grupo de concertinas da sua terra.

Há pouco tempo, vários amigos ligados a uma associação de defesa do património do Vale do Âncora, construíram dezasseis instrumentos da família do Jazz do Penico, levando a efeito uma exposição no Centro Cultural e Vila Praia de Âncora, que teve lugar de 2 a 7 de Abril de 2006.
Esta exposição foi promovida pela Academia de Música Fernandes Fão e foi integrada no 3º Concurso Ibérico de Piano do alto Minho. No dia de abertura foi feita uma demonstração das capacidades musicais deste instrumento popular, num “concerto” muito aplaudido pelas muitas pessoas presentes. Assim fica demonstrado que o encanto e a simplicidade que este tipo de tradições contém não devem ser desconsiderados.
As usanças transmitidas de geração em geração são parte da nossa memória cultural, podem, no entanto, é meu entendimento, ser objecto de adaptações, por forma a exprimir o tempo em que vivemos, abrindo possibilidades reais para os mais novos serem receptores espontâneos deste legado cultural.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


publicado por nuceartes às 22:28
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