Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora
Domingo, 4 de Novembro de 2012
OS COVEIROS DA NOSSA CULTURA

Independentemente do estado em que o país se encontra, o património irá sempre exprimir todo o significado histórico e cultural da presença humana, será sempre um documento que transmitirá às gerações futuras os valores e aspectos significativos da vida e do trabalho daqueles que desbravaram a região, e da sua articulação com o meio.

 

Se não houver capacidade de resistir conscientemente às pressões absorventes da macroeconomia, para assegurar a evolução natural da nossa sociedade, apenas ficará o espólio em alguns museus, e os vídeos etnográficos para recordar o que a comunidade em estudo realizou.

 

Esta introdução tem a ver com a zona piscatória de Vila Praia de Âncora (Portinho), que em poucas décadas foi sujeita a transformações profundas.

 

Seria interessante manter algumas peças como documentos históricos da classe piscatória, que ocupa a faixa litoral de V.P. Ancora há vários séculos, de forma a transmitir a nossa identidade, sendo fundamental que se criassem condições para que sobrevivessem e dignificassem os valores das tradições daquele local, pois, com o prolongamento da avenida para Norte (década 70 do séc. passado), foi demolida a casa-abrigo do salva-vidas "Lagoa", e a embarcação foi deixada ao abandono. Além disso, substituíram os candeeiros existentes na Av.Dr Ramos Pereira, destruindo-lhe a identidade aristocrática, com origem no turismo que de acordo com o livro de Ramalho Ortigão "Praias de Portugal" publicado em 1876, aquele escritor referia na pág.111, que entre as pequenas praias são particular dignas de menção as seguintes:

 

"Âncora, pequena povoação situada entre Viana e Caminha. É dos mais lindos sítios do Minho. Fica à beira da mais bella estrada de Portugal.".

 

Trinta e tal anos depois, em 26 de Julho de 1909, numa revista semanal, "lustração Portuguesa", editada pelo jornal O Século, saia uma reportagem intitulada "Uma linda praia do norte - Âncora", documentada com uma fotografia daquela praia.

 

A notícia referida conjuntamente, com a emissão de diversos postais ilustrados, possivelmente originou uma maior divulgação daquela praia, que há mais de um século é o local preferido de muitas famílias nacionais e estrangeiras para passar as suas férias.

Ultimamente tem sido sujeita a uma alteração do seu enquadramento urbano alterando significativamente a mais antiga estância turística do Distrito de Viana do Castelo, (de acordo com os registos existentes, a partir da década de 70 do século passado, foi sempre afastando o actor principal do seu palco). Afastou-o da sua moradia donde contemplava o mar e o extenso areal. E dum ritual nobre e, multissecular, fazendo a manutenção das suas redes sempre atento ao movimento do oceano, na sua avenida.

 

Agora, contemplam nostálgicos a eliminação do antigo posto de venda das suas pescarias, onde depois das suas alvoradas, ou nas "horas mortas" do dia, narravam os factos de mais um dia duma existência atormentada e incerta, a baloiçar no extenso oceano .

 

Aquele lugar ficou mais recatado, e aquele vai e vem constante, a partir da chegada das traineiras que se enchia de animação e de alegria e transbordava para toda a área envolvente ao portinho desapareceu, com a eliminação da lota. Essa construção que até podia servir como um "centro de interpretação", onde podiam colocar documentação e e fazerem exposições para quem visita aquela área poder ficar mais bem informado, não foi aproveitado e demoliram-no (out. 2012). Possivelmente, dentro de pouco tempo, com "apoio comunitário", surge uma construção para um centro de interpretação próximo daquele local….

 

Vila Praia de Âncora é ainda hoje (mesmo sem bandeira azul) uma das zonas turísticas mais procuradas, no Verão, do distrito de Viana do Castelo. Os responsáveis não deviam eliminar os locais que podiam servir de centros de informação.

 

Não era um edifico de grande valor arquitectónico, nem era uma construção muito antiga (década de 60 do séc. passado), no entanto documentava um local em que os pescadores rematavam o peixe e partilhavam as historias das dificuldades da alvorada passada.

 

Não nos podemos alhear da ocupação humana deste faixa litoral e da forma como as sucessivas gerações aproveitaram os recursos e as alterações que introduziram na estrutura desse espaço ribeirinho, mas com a eliminação de todo este património, é meio "caminho andado" para a eliminação da nossa identidade.

 

È certo que "os cangalheiros" deste País, tornaram-no num "protectorado" europeu ou alemão, em que tudo tem sido vendido, desde a nossa independência económica, à venda das cotas do pescado e das diversas cotas agrícolas, até à venda da "língua com o famigerado acordo ortográfico", negociado pelos "Dr. dos canudos da independente", tudo está a ser negociado. Cabe-nos a nós proteger os nossos valores culturais.

 

Joaquim Vasconcelos

           



publicado por nuceartes às 10:31
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