Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora
Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2012
Património desprezado

Uma parte significativa do nosso património edificado está em más condições de conservação, quando não em ruinas.

Embora a responsabilidade da recuperação e manutenção esteja repartida entre diversos organismos, estes parecem ser dotados de uma certa precaridade, que a miúde os "obriga" a mudar de estrutura orgânica, numa espécie de cabra cega, em que todos fogem às suas responsabilidades.

Será essa mais uma consequência dos orçamentos miseráveis que, ano após ano, o Estado atribui ao sector da cultura?

Esse facto justifica parte do problema, mas a tradicional ausência de uma cultura de preservação dos bens públicos, a par de uma tendência para gastar recursos em equipamentos desnecessários e modas efémeras, ditam muitas vezes a impossibilidade da preservação séria das nossas joias mais queridas. Face à "ausência" dos serviços do Estado, em regra, são as autarquias a despoletar os processos de alerta e de salvaguarda do património, nomeadamente por via da classificação.

Em relação ao Concelho de Caminha, poucas vezes a autarquia revelou preocupações com a defesa do património arquitetónico.

Pelo contrário, ao longo dos últimos trinta e cinco anos, várias foram as situações em que se verificou um deficit de intervenção da autarquia na defesa do legado público.

Há casos paradigmáticos como o Dólmen da Barrosa, o Castro do Coto da Pena, a Cividade de Âncora-Afife ou a Ponte de Vilar de Mouros.

Vamos olhar com mais detalhe, por exemplo, para o caso do Dólmen da Barrosa, classificado como Monumento Nacional e um dos exemplares dolménicos mais emblemáticos a nível Ibérico. Implantado num terreno particular, este foi adquirido pela autarquia no pressuposto da implantação de um bairro social nas imediações. Estamos a falar do início da década de oitenta quando a sensibilidade para a preservação do património era praticamente nula. É certo que não se construiu o bairro social à sua volta, mas trinta anos depois, o monumento continua sem qualquer tipo de proteção, nem de valorização.

O caso do Castro do Coto da Pena ainda se torna mais grave, pois não houve um cuidado especial no momento da elaboração do PDM, para criar uma zona adicional de proteção além dos 50 metros, estabelecido pelo estatuto da sua classificação como Monumento Nacional. Fizeram-se construções e arruamentos que, provavelmente, terão destruído de forma irreversível, vestígios ainda não estudados, daquele complexo castrejo, que acabou "entalado" entre o casario.

A Cividade de Âncora-Afife é outro caso onde o desinteresse municipal é ainda mais evidente. Depois de ter sido parcialmente estudada no fim dos anos setenta, foi votada ao abandono, perdida entre as infestantes e as dúvidas administrativas resultantes da localização repartida pelos Concelhos de Caminha e Viana do Castelo. Hoje, nem caminho existe para uma visita a estes vestígios milenares.

Poderia aqui escalpelizar mais alguns casos, mas a intenção é alertar para esta falta de interesse e vocação da maioria dos nossos autarcas, para tudo o que signifique memória cultural.

O Concelho de Caminha tem um apreciável potencial do ponto de vista do património arquitetónico, que não tem sido devidamente aproveitado como mais-valia, para uma oferta cultural rica e diversificada. Não basta lavar pedras para aplacar consciências. É preciso dignificar e dar sentido ao património, começando pela sua divulgação e explicação.

Só com o envolvimento de todos, autarcas, investigadores e população, é possível criar uma cultura de preservação e valorização daquilo que nos foi legado pelos nossos antepassados.


Brito Ribeiro



publicado por nuceartes às 11:25
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