Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora
Domingo, 4 de Maio de 2008
NUCEARTES promove exposição evocativa no Centro Cultural de Vila Praia de Âncora
 
CARPINTEIROS E MARCENEIROS EVOCADOS EM EXPOSIÇÃO
 
 
Centenas de ferramentas e técnicas artesanais de carpintaria utilizadas nas antigas oficinas de marcenaria e carpintaria de Vila Praia de Âncora nos séculos XIX e XX, podem ser apreciadas até final deste mês no Centro Cultural desta vila, integradas numa exposição dos homens das artes ancorenses, no âmbito de uma iniciativa do Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora.
Domingos Vasconcelos (neto e bisneto de carpinteiros) e Rafael Capela (ex-restaurador de móveis) foram os principais impulsionadores desta exposição que retrata a "influência que as muitas oficinas tiveram no desenvolvimento económico" de Gontinhães, hoje Vila Praia de Âncora, "autênticas escolas de aprendizagem e formação de muitos jovens".
 
Entre os mais variados e inéditos utensílios expostos, incluindo antigas bancas de carpinteiro, tornos, dezenas de serras, moldes, etc., podem-se apreciar recortes de jornais, facturas de trabalhos executados e fotografias de marceneiros e carpinteiros de oficinas de carpintaria grossa "onde se construíam os carros de bois, vasilhame, madeirados ou soalhos" e outros, de artes "mais finas", em que sobressaía a produção de portas, janelas e móveis da época".
Muitos foram os ancorenses descendentes desses artesãos que disponibilizaram ferramentas dos seus antepassados para esta mostra. Em alguns casos, os que ainda estão ligados à carpintaria, nomeadamente ao restauro, ainda as utilizam.
 
Foram os casos dos familiares de Bento da Rocha Pires, João do "Paula" (João Francisco de Araújo) e Mário Augusto Pereira Rego, muito embora antigos e actuais carpinteiros também se prestaram a facilitar instrumentos, tendo alguns deles, "exercitado" a sua arte no próprio dia da inauguração da exposição.
 
Curiosa é a associação feita entre a carpintaria e a música, já que muitos desses antigos artesãos integraram a antiga Banda de Vila Praia de Âncora e mesmo a de Lanhelas, razão pela qual se podem apreciar alguns instrumentos musicais no meio dos utensílios de madeira e ferro provenientes das carpintarias e marcenarias.
 
"EXPOSIÇÃO MARAVILHOSA"
 
Francisco Sampaio foi um dos presentes na inauguração, sublinhando ser esta mostra uma "parca" percentagem do que se presume existir na posse de muitas famílias, tendo sublinhado a sua ligação à oficina de Arnaldo Pereira Rego.
O conhecimento de línguas permitiu-lhe apoiar essa carpintaria e marcenaria mecânica que existiu até aos anos 70 do século passado, fazendo-lhe a correspondência e indo levantar as peças de madeira exótica em bruto que chegavam a Leixões, a fim de serem transportadas até Vila Praia de Âncora, onde eram preparadas e devolvidas à origem para o fabrico de móveis de estilo basco.
Sugeriu visitas das escolas até ao Centro Cultural para que "os alunos tenham uma vivência como isto era antigamente" e comparando com as modernas maquinarias. Não esqueceu a sua integração no futuro Museu do Vale do Âncora, de modo a "não ter aqui um grande repositório porque é impossível abarcar tudo, mas termos as melhores peças", no intuito de preservar aquilo que "os nossos antepassados nos deixaram".
 
MEIO SÉCULO DE CARPINTARIA
 
 José Maria Brás, carpinteiro há meio século, marcou presença nesta mostra, exercitando-se num torno antigo movido a pedal e que ainda possui como recordação de uma arte que abraçou em casa de seu pai, um antigo carpinteiro que o iniciou na profissão, tendo depois passado por duas oficinas até cumprir a tropa.
Trabalhou mais tarde na oficina do Eugénio Parente, em Âncora, até que optou por se estabelecer por conta própria nos anos 70, referindo que apenas usa ferramentas antigas, quando necessita de fazer certas molduras relativamente às quais não existem alternativas
Considerou "positiva" a iniciativa que permitiu "divulgar a nossa arte que é bastante pobre", admitiu.
 
"ERA O REGIME…"
 
José Maria Domingues, mais conhecido por José "Piruças", como fez menção de sublinhar, também já ultrapassou as cinco dezenas de anos nesta profissão, dedicando-se agora a trabalhar de graça.
Mostrou-se seguro de que ainda conseguiria fazer algumas peças como as que se encontravam patentes, dando como exemplo uma plaina com que se exercitava, "embora não tão perfeitas…" precisou, entre risos, acrescentando de seguida que "quem faz o que pode não é de mais".
Trabalhou grande parte da sua vida com um tio, mas logo que abandonou a escola "fui ganhar 10 tostões como criado de servir, tendo ido depois trabalhar nesta arte durante dois anos sem ganhar nada" e ao fim desse tempo "voltei a ganhar 10 tostões outra vez…", acrescentando que "era o regime" da época em que ia a Soutelo "levar um saco de fitas aos ingleses para ganhar dois mil e quinhentos".
A sua especialidade eram os trabalhos em carpintaria grossa, como portas, caixilhos mas, "no que eu era bom era a arremendar solho, ajeitar cortes de vacas, serrar, limpar a oficina e puxar ao carrinho, porque quando se é novo um homem é um bobo de carga".
Sentiu uma enorme alegria com esta exposição, fazendo votos para que ela seja mostrada na televisão, como forma de divulgar uma arte tradicional.
 

MAIS DE 300 PEÇAS
 
Domingos Vasconcelos, um dos entusiastas da iniciativa que juntou mais de 300 peças, considerou terem tido "muito trabalho" a reunir este espólio e a apresentá-lo, salientando a evolução desta arte, que a partir do campo se foi desenvolvendo, muito por influência dos banhistas que a partir de finais do século XIX começam a procurar a praia de banhos e a construir novas casas em Gontinhães, tornando-se num factor de expansão do comércio e da própria actividade da carpintaria.
Não descarta voltar a repetir a exposição noutros locais e em outras épocas do ano, "desde que haja apoios", porque o trabalho de montagem (a recolha de material está feita, sublinhou) é muito.
Texto e fotos do semanário digital http://www.caminha2000.com/
 


publicado por nuceartes às 16:30
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1 comentário:
De moveis paços de ferreira a 6 de Maio de 2011 às 18:18
Excelente artigo


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