Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora
Terça-feira, 24 de Junho de 2008
Preservar ou poluir

Em 1991, quando foi apresentado um projecto para protecção da Bacia Hidrográfica do rio Âncora, paralelamente, preparava-se a criação de uma Reserva Marinha junto do forte do Cão, devido à biodiversidade extraordinária do local, que apresentando as espécies próprias da orla litoral, também albergava uma grande variedade de moluscos, vegetação marinha e de peixes. Além das características marinhas, também seria uma boa oportunidade de dinamizar o forte do Cão.

De acordo com as pesquisas realizadas em diversa bibliografia da especialidade, os especialistas, referem que a vegetação marinha, florestas submarinas e jardins cromáticos, que se movem ao som das ondas e das marés, dão origem a um imenso laboratório, em que os micro organismos, utilizando como elementos a luz solar, o dióxido de carbono do ar e o oxigénio da água, geram a função clorofílica em que de acordo com trabalhos realizados, os mesmos investigadores consideram que 80% do oxigénio que hoje respiramos, continuam a ser fabricado pelas algas, sobretudo nas suas formações microscópicas ou fitoplâncton.
 
Face ao valor destes tesouros vivos submersos, nos princípios da década de 1990, o Governo Autónomo galego patrocinou um projecto científico onde concluíram que esta região marítima apresenta dos melhores recursos em algas silvestres do sul da Europa, com uma extraordinária riqueza em espécies comestíveis medicinais. Mas as características da riqueza destes recursos, prolongam-se através da corda litoral Norte de Portugal, alimentada pelas correntes marinhas existentes.
Estas correntes vão dar origem a um renovar e a um enriquecimento único das águas desta região e a um dos mais ricos ecossistemas marítimos do mundo, tão vivo e variado, com uma capacidade realmente extraordinária de regeneração e reprodução, apenas comparável às selvas equatoriais em terra firme. É este trabalho de saneamento, renovação e enriquecimento que continuamente fazem as correntes e as marés que vão garantir uma salubridade daquelas águas onde é agradável mergulhar para sentirmos a limpidez das águas do mar e a riqueza desse ecossistema.
Quem pratica actividades subaquáticas, mesmo sem possuir grandes conhecimentos, pode constatar o valor biológico da área marinha em questão, porque estes jardins ou selvas submarinas, que, com as suas formas e cores, oferecem um espectáculo vivo e um testemunho de permanente exuberância.
Mas… sempre aquele mas…. E como no mundo actual não podemos dissociar ambiente do tema poluição, ao analisar a envolvente e interrogarmo-nos sobre os objectivos que o poder autárquico ou nacional pretende para estes locais.
 
Presentemente, neste local está a nascer a poucos metros da costa, uma área urbanizada. Não se sabe se de facto os índices urbanísticos estão ou não correctos, no entanto embora no PDM refira estarmos perante uma zona de baixa densidade (rés do chão + andar), vamos encontrar uma cave elevada e se for como um empreendimento do outro lado do arruamento ainda levará mais um piso recuado. Mas se formos a considerar os índices de referência de área coberta, como existe uma área em que não é permitido construir, possivelmente vamos assistir a uma "muralha de betão" a limitar essas urbanizações litorais.
Mas as dúvidas continuam quando uns metros mais abaixo, nos aparece um loteamento urbanizado, sem conseguirmos divisar as placas informativas de aprovação da mesma. O Decreto-Lei nº177/2001 de 4 de Junho não está a ser respeitado e diversas portarias não estão a ser satisfeitos. E enquanto as áreas continuam a ser impermeabilizadas pergunta-se…, e as águas pluviais? E o saneamento?
E quando foram permitidas as construções nesta área, que vão criar a descontinuidade da Rede Natura 2000, do sítio litoral Norte (Código-PTCON0017), começamos a prever a destruição das qualidades ambientais desta reserva marinha. A pressão humana que se vai criar no cordão dunar, e a poluição que se vai fazer sentir por arrasto, vai de facto delimitar, e mesmo eliminar alguns tufos de plantas endémicas no local. Os responsáveis por esses deferimentos devem desconhecer que aquela corda litoral está integrada nas proximidades de uma área marinha de elevado interesse botânico.
E que se saiba nos lugares com um grau de poluição acentuado não costumam crescer as algas. Pelo contrário, existem outras algas que se configuram como bio indicadores da qualidade das águas e que, inclusivamente, servem para a depurar e o peixe e o marisco podendo acumular entre 10 e 300 vezes a poluição orgânica e inorgânica que existem nessas algas.
Mas tendo em consideração a riqueza ambiental do local, as construções que estão a realizar são presentes envenenados, que podem vir a comprometer a riqueza ambiental da área.
O mar, embora se apresente como algo imensamente poderoso e vivo, pode minimizar os efeitos de poluição mas não garante a sua eliminação. E quando os objectivos desta corda litoral se resumem a um turismo de qualidade, então deve-se considerar a prevenção a prioridade nº 1 para conter a poluição.
 
Joaquim Vasconcelos


publicado por nuceartes às 09:09
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