Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora
Sábado, 22 de Setembro de 2007
O jogo da bola de pau ou do aro
 
REGRAS
 
 
1º Instrumentos do jogo
 
– Aro metálico e duas bolas de madeira de sobreiro
          
Aro metálico com diâmetro interior de 16cm aproximadamente, frente marcada com uma cruz, é pelas “vergas” (frente do aro) que a bola deve ser introduzida para levar o ponto.
           O aro tem uma haste pontiaguda entre 15 e 20cm para poder ser espetado no terreiro.
           As bolas têm um diâmetro inferior ao do aro entre 1 e 2cm.
 
2º Espaço onde decorre o jogo
 
Terreiro do Adro da Capela de S. Sebastião, plano e delimitado pelo adro. Do ponto onde o aro é espetado até à linha de ré (linha de lançamento) distam 15m. A linha de ré é identificada no Terreiro do Santo por uma cruz incisa na pedra do capeado do adro e dai é tirada uma diagonal à esquina da estrutura exterior da Capela que dá origem ao arco triunfal que une a nave à capela-mor.
 

 
 
3º – O JOGO –
 
O objectivo básico deste jogo é o de introduzir a bola no aro. É jogado a dois ou a quatro, nesta modalidade será a parceiros. O aro é espetado no lugar habitual com as “vergas” para a frente e de forma a poder girar facilmente.
           Não há nenhuma regra para determinar quem começa o jogo.
Na linha de ré um dos jogadores faz o primeiro lançamento que terá que ultrapassar a linha do aro, se bater no aro e recuar é válido, se ficar para aquém da linha do aro é um “gato” (os assistentes costumavam miar) nesta situação o adversário soma um ponto. O jogador que faz o lançamento em segundo lugar pode colocar a bola para cá da linha do aro.
           Se no primeiro lançamento a bola entrar directamente no aro o jogador soma dois pontos, o jogo prossegue até que um dos jogadores, depois de vários lances, meta a bola no aro, o que vale um ponto. Terminada esta jogada, os jogadores voltam à linha de ré para novos lançamentos. Joga em primeiro lugar quem tiver levado o ponto.
 

 
4º “fazer cabo”
 
No decorrer do jogo, qualquer dos jogadores pode arremessar a sua bola contra a do adversário, destruindo ou dificultando o seu jogo, pode igualmente fazer um “cabo”, para isso terá que projectar a bola do seu concorrente para lá da linha de ré, se o conseguir soma dois pontos.
Esta jogada podia originar algum perigo para os assistentes devido aos ressaltos, por isso os jogadores avisavam a assistência e, em voz alta, gritavam “éh vai bola”.
 
5º “Quadrar”
 
Há no jogo do aro uma jogada para três pontos, ao alcance apenas dos grandes jogadores e que acontecia no Terreiro do Santo. É necessário fazer “cabo” e em simultâneo a outra bola terá que entrar no aro. Esta jogada é identificada pela expressão “Quadrar”.
 
 
6º Final do jogo
 
O jogo termina quando um dos jogadores / equipa totalizar 15 pontos ou riscos. O prémio para o vencedor era um copo de vinho na Taberna do Fortunato[1]. Os pontos era costume serem riscados no terreiro por alguém escolhido de entre os assistentes.
 

 
 
Regra de carácter auxiliar
 
Quando um dos jogadores tem dificuldade em introduzir a bola no aro (o terreno não está ao seu jeito) tem a possibilidade de mudar o aro no fim da jogada para o local do terreno que achar mais conveniente desde que seja respeitada a distância dos 15m.
 
Regra de carácter impeditivo
 
No decorrer dos lances duma jogada, se a bola ficar rigorosamente encostada ao aro, o jogador desta bola está impedido de fazer a jogada do cabo ao contrário do seu adversário que pode fazer o “tento” (meter a bola no aro).
 
Regra de carácter regulador
 
Quando a bola de um dos jogadores se encontra na boca do aro mas ainda não o barou completamente, o outro jogador se tiver a sua bola na retaguarda do aro pode arremessar a do seu adversário para longe da boca do aro, fica no entanto a “dever custas” por ter introduzido a sua bola pela parte de trás do aro, na sequência da jogada não pode fazer o ponto.
 
Regra do palmo e meio
 
Esta regra é aplicada junto ao aro e à ré.
 

 
 
Quando um dos jogadores pretende fazer um cabo e a sua bola tocar de raspão na do adversário e passar assim para além da linha de ré tendo a do seu concorrente ficado dentro do espaço de jogo é aplicada a regra do palmo e meio. A bola que ultrapassou a linha de ré é sancionada e colocada à distância de palmo e meio para dentro da linha de ré dando possibilidades ao outro jogador de “fazer cabo” e somar dois pontos se este assim o entender.
           Junto ao aro a mesma regra pode ser aplicada quer pela frente quer pela retaguarda, podendo qualquer dos jogadores, desde que esteja ao alcance do seu braço, colocar a bola à mão à distância de palmo e meio do aro.
           Para além destas regras há pequenos detalhes que surgem no decorrer do jogo, muito interessantes e que provavelmente são indícios de outras regras que entretanto se perderam. Na actualidade estão associadas à estratégia que cada jogador adopta para sair vencedor do jogo.
          
           Regra de carácter posicional
 
           Durante o jogo, os jogadores terão que se posicionar, quando intervêm nos lances de forma correcta, isto é, o pé direito é colocado rigorosamente onde se encontrava a sua bola e o esquerdo atrás. A bola deve ser lançada desse alinhamento, sendo que o braço não pode afastar-se lateralmente procurando a boca do aro, ou como dizem os antigos jogadores: não se pode fazer “foucinha”.
 
           Regra da faculdade giratória do aro
 
           No início de uma jogada o aro está sempre com as vergas viradas para a linha de lançamento. Após o primeiro lance a situação pode alterar-se sempre que uma das bolas tocar as vergas e estas ficarem voltadas para a lateral ou para a retaguarda. Quando um dos jogadores fizer o “tento” tudo volta à primeira forma.
 
O NUCEARTES agradece a todos que contribuíram com informações para o registo desta manifestação popular, o principal obrigado vai para o mais antigo jogador vivo (quase 90 anos – o Sr. Evaristo Gonçalves Presa)


[1] Loja / Taberna que existia no Lugar do Santo cujo proprietário era o senhor Fortunato, depois o Artur Presa e finalmente o Manuel Quintas.


publicado por nuceartes às 22:14
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