Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora
Domingo, 13 de Fevereiro de 2011
Atentados no Terreiro de Caminha

Na triste manhã de 15 de Agosto de 1926, um infeliz num acto de loucura atentou contra a vida do insigne cientista caminhense Luciano Pereira da Silva que, três dias passados, não resistiria aos ferimentos falecendo prematuramente aos 61 anos de idade. O infausto atentado aconteceu mesmo à porta de casa do lente coimbrão, o belo Solar dos Pittas Negrões, erguido no gaveto da Praça Conselheiro Silva Torres com a Rua 16 de Setembro. Luciano tinha nascido no lado contrário do Terreiro, na casa por cima da farmácia de seus pais - local assinalado com uma lápide em 1964, quando do centenário do seu nascimento - mas em 1916 decidira adquirir para residência própria o solarengo edifício - o brasão dos Pitta, quase na esquina, foi picado em 1889 - que estava então na posse de um seu tio, António Agostinho Coelho da Silva, depois de ter passado por outras mãos desde a sua construção.

 

 

Um belo exemplo da arquitectura civil do início de setecentos, único em Caminha, datando de 1715 de acordo com Figueiredo da Guerra (O Instituto,74,3,1927,444-447) ou então de 1725, se seguirmos o sólido historiador que foi Manuel Jorge de Avillez que sobre o assunto escreveu fundamentado e bem ilustrado artigo (Caminiana,II,3,1980,93-104). De acordo com este último, foi o palacete mandado levantar pelo fidalgo Brás Pitta de Ortigueira para sua moradia, tendo sido seu construtor António Rodrigues do Valle, oriundo do Sopo, freguesia sobejamente conhecida pela fama dos seus mestres pedreiros. Daí certamente a qualidade arquitectónica do edifício, harmoniosamente inserido na malha urbana da principal praça da vila onde, desde há quase três séculos, impõe a sobriedade de um tardio classicismo e a elegância discreta que lhe dão os frontões em voluta que encimam os cinco balcões da fachada e os dois virados a norte. Figueiredo da Guerra, no citado artigo, chega a adiantar que o autor do projecto terá sido o vianense Manuel Pinto de Vilalobos, um dos grandes engenheiros militares do seu tempo, responsável pelas obras de numerosas fortificações raianas e autor da rigorosa planta de Caminha de 1713.

 

Vivendo nesta casa nos períodos que passava na acarinhada terra natal ao longo de uma década, abruptamente interrompida, Luciano Pereira da Silva teve oportunidade de usufruir do conforto proporcionado por um interior que "havia transformado em cómoda vivenda" (F. da Guerra), onde sobressaía nobre escadaria que ficou na memória dos caminhenses. Aqui passava o Natal e os longos estios, recebendo amiúde amigos e colegas universitários como Aureliano Mira Fernandes, Álvaro Novais e Sousa ou o médico e historiador de arte Reynaldo dos Santos - que veio a Caminha em 1923 estudar a Igreja Matriz - e ainda eruditos de toda a Europa, de que são exemplo os alemães Max Leopold Wagner, Bernard Schaedel e o publicista galego Álvaro de Las Cazas (Correspondência de Luciano Pereira da Silva com Joaquim de Carvalho, Coimbra Editora, 1984).

 

Mais de oito décadas decorridas desde o atentado que veio a vitimar Luciano, eis que novo atentado sucedeu no Terreiro de Caminha, desta vez à senhorial residência que foi do autor da Astronomia dos Lusíadas, comummente chamada Casa das Torres pelo facto de aí terem vivido em tempos mais recentes as sobrinhas e herdeiras do cientista caminhense, de nome Torres. Preservando-se a aparência - a fachada - destruíram-se completamente os interiores e a nobre escadaria, em nome de um tal Hotel de Design & Wine anunciado em grandes parangonas com um indisfarçável novo-riquismo que faz lembrar os anos oitenta do século XX, de má memória para o urbanismo e a arquitectura da vila da Foz do Minho.

 

O mais grave é que, ao reverso do que sucedeu em 1926, este outro atentado está a acontecer com o beneplácito das entidades públicas que deveriam superintender e preservar o nosso património comum. Realizada em 2006 a obrigatória intervenção arqueológica suscitada por um inicial projecto de reabilitação do edifício, daí resultaram recomendações minimizadoras para a obra que se pretendia empreender que passavam, cito, pelo "levantamento e estudo completo do perfil arquitectónico e histórico da casa a restaurar" e, ainda, "no interior da casa, tendo em conta as ocorrências arqueológicas registadas, deverá evitar-se o uso de meios mecânicos..." (Laura Cristina Peixoto de Sousa, Relatório Preliminar dos Trabalhos Arqueológicos na Praça Conselheiro Silva Torres, nº 8-16 e Rua 16 de Setembro nº 1-5, Empatia Arqueologia, 2006).

 

 

Sabemos agora no que deram estas recomendações. Ao que nos dizem, com uma mudança de proprietários e de projecto, do prometido restauro sem a utilização de meios mecânicos passou-se à demolição a camartelo dos interiores do nobre solar. Tudo legal, tudo autorizado pelo Conselho Consultivo do Igespar que não hesitou mesmo em contrariar um parecer desfavorável da Direcção de Cultura do Norte. Em nome de um projecto de arquitectura "moderno" - que poderia fazer sentido se restrito ao logradouro - e de um conceito hoteleiro (os hotéis de charme) que há muito defendemos para Caminha mas que nos países civilizados passa precisamente pela valorização e reabilitação do património, não pela sua destruição. O irónico de toda esta tragédia é que os autores do projecto ainda vêm argumentar que "há que ter cuidados muito especiais com a história e todos os elementos arquitectónicos" (JN, 4-2-2011). Imagine-se se não tivessem cuidados!

 

Paulo Torres Bento, 12 de Fevereiro de 2011

 

Retirado do semanário digital Caminha2000



publicado por nuceartes às 11:40
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