Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora
Quarta-feira, 22 de Junho de 2011
O Patelo, do mar para a lavoura do passado

Entre tantas coisas do mundo que nós perdemos (para usar o título de uma conhecida obra do historiador britânico Peter Laslett), conta-se a estreita relação que, num passado ainda relativamente recente, se estabelecia entre os frutos do mar e os trabalhos agrícolas, principalmente no que aos fertilizantes dizia respeito. Mais conhecido, o sargaço ainda hoje é utilizado com esse propósito e, mesmo que em grau reduzido quando comparado com outras épocas, continua a ser apanhado na região minhota, de Moledo à Apúlia. Em contrapartida, outros produtos marinhos que outrora desempenharam um destacado papel económico de ligação entre as comunidades piscatória e rural há muito que caíram no esquecimento. É o caso do patelo.

 

Patelo era o nome dado no litoral alto-minhoto, do Minho ao Lima, a uma espécie de caranguejo mole de forma circular (cerca de 5 cm de diâmetro) que, depois de entrar em putrefacção, era um óptimo fertilizante orgânico para as terras. Comum em toda a costa norte, a sua designação variava, sendo conhecido por pilado do Lima ao Douro e mexoalho ou escasso daí para sul até ao Mondego. Abundante desde o início do Verão até ao mês de Novembro, pescava-se à vista da costa, ou perto dela, à superfície ou até profundidades de 20 metros, utilizando redes próprias de grande resistência.

 

No início do século XX, a pesca do patelo era uma fonte de rendimento certa para os pescadores do norte de Portugal que vendiam o pequeno crustáceo castanho aos lavradores logo na praia — onde iam buscá-lo de carro de bois — ou então levavam-no pelos rios acima para o transaccionar pelas aldeias. O concelho de Caminha não era excepção a este comércio, por vezes vindo de longe como se comprova por notícia inserta no Jornal Caminhense de 23 de Setembro de 1909:"...nos últimos dias entraram no nosso porto algumas lanchas poveiras carregadas de caranguejo mole a que vulgarmente dão o nome de patelo. Essas lanchas subiram o rio Coura até Vilar de Mouros e ali foram descarregadas. Aqueles mariscos são um bom adubo para os campos, sabido como é que as terras da nossa província são falhas de substância calcária, tão útil para a sua fertilidade...". Contudo, o relacionamento entre os pescadores vindos da Póvoa de Varzim e os vilarmourenses, gentes de culturas diversas, não era isento de problemas: "...informam-nos que os tripulantes das referidas lanchas, tendo desembarcado na freguesia de Vilar de Mouros, assaltaram os campos e as vinhas como uma praga de gafanhotos, causando muitos prejuízos pois que até derrubaram e quebraram parreiras. Na administração do concelho foi apresentada queixa contra esta horda de vândalos que é velho costume entrarem nas propriedades para furtarem os seus frutos...".

 

Também para os pescadores da Praia de Âncora o patelo era uma importante fonte de rendimento ao ser vendido aos lavradores de todo o vale do Âncora, contribuindo para minorar a endémica miséria da comunidade piscatória sediada no Portinho. Porém, também aqui havia quem protestasse, quase sempre invocando razões de salubridade, como sucedeu por alturas da terrível gripe pneumónica de 1918. Numa correspondência local para o jornal Correio do Minho, datada de 7 de Novembro desse ano, escrevia-se: "... continua o patelo a ser espalhado pelos campos desta freguesia [Gontinhães], onde dias e dias fica a descoberto! Como isso representa um grande e gravíssimo perigo para a saúde pública, para o assunto chamamos a atenção do digno sub-delegado de saúde deste concelho". Queixas similares provindas de outras freguesias do concelho obrigaram então a Câmara de Caminha a determinar a obrigatoriedade dos depósitos de patelo nos campos serem efectuados à noite e logo cobertos com terra mas o sucesso desta medida terá sido relativo porque ainda continuaram por algum tempo os protestos de teor semelhante.

 

Certamente mais do que os problemas de relacionamento entre agricultores e pescadores, a crescente preocupação com as questões higiénico-sanitárias acabaria por provocar o progressivo declínio do uso do patelo como fertilizante das terras. Para mais, começavam a aparecer no mercado os adubos químicos — desde 1912 que se encontram na imprensa concelhia anúncios da sua venda — de que os mais populares viriam a ser os Nitratos do Chile, de cujos impressivos cartazes publicitários ainda hoje se encontram vestígios pelas antigas estradas nacionais. O patelo, por sua vez, continua a ser farto alimento para os peixes e mesmo na pesca ainda é muito apreciado como isco de qualidade mas nunca mais recuperou o lugar de destaque que chegou a ocupar na economia das zonas costeiras nortenhas.

 

Dr. Paulo Bento, publicado em http://www.caminha2000.com/jornal/n544/cmc3.html



publicado por nuceartes às 11:16
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1 comentário:
De melhor detective privado a 29 de Novembro de 2011 às 01:41
bom dia mito thanks ver isto é extrmament bom. essa entrada é fenomenal.. considere-me seguidor nato aqui do website, cumps


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