Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora
Sexta-feira, 3 de Novembro de 2017
ORDENAMENTO… COLIDE COM SUBSIDIOS PARA EUCALIPTOS

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De acordo com técnicos florestais, embora os incêndios sejam uma calamidade a todos os níveis, poucas pessoas parecem saber que a paisagem mediterrânica está intimamente ligada com o fogo e que a vegetação autóctone está bem adaptada e, em alguns casos, até dependente da sua ocorrência regular. "Muitas das espécies vegetais aqui presentes são estimuladas pelo fogo, ou seja, por factores, como o calor e o fumo, que promovem fenómenos como a dispersão, a germinação, a floração, etc.". Então, por que razão não controlam os incêndios? São várias as razões. Uma das mais importantes é que "a vegetação nativa da região mediterrânica tem sido substituída por espécies exóticas em especial o eucalipto.

 

Houve factores que serviram para a situação se agravar como o caso da extinção dos guardas florestais (força desmilitarizada que fiscalizava, informava e colaborava na limpeza de grandes áreas montanhosas), fazendo um trabalho extremamente importante na área da prevenção, pois não é possível fazê-lo a partir dos gabinetes. Além de tudo isto, a extinção desses guardas, foi um erro pois conseguiram transformar um força que trabalhava directamente no terreno, num clube de amigos que julgavam que os fogos se apagam só com aviões e equipamento de bombeiros.

 

Deixaram destruir um património habitacional importante (casas florestais) e devidamente localizado em locais chave para controle de incêndios, e fiscalização da própria natureza mostrando um desconhecimento do País real, e uma ignorância incrível de como se pode controlar os incêndios.

Para o problema dos incêndios, havia necessidade de eliminar os problemas inerentes à monocultura, mas os responsáveis da altura optaram por aplicar a "sensibilização das ditaduras" e solucionar a questão com cargas policiais contra a comunidade civil e contra elementos de associações ambientais, que contestavam e faziam frente à expansão da monocultura do eucalipto. Mesmo os políticos denominavam-nos de comunistas, fundamentalistas. Foi assim que em 1989 conforme o descrito no semanário EXPRESSO de 1 de Abril, com o título "QUANDO OS LOBOS UIVAM" os populares e ambientalistas referiam que "o Eucalipto vai secar a nossa terra"; as populações revoltaram-se, mas sem abalar o poder financeiro das celuloses.

 

Além disso, é vergonhoso que ao fim de todos estes anos ainda não tenham analisado, a situação e mais incrível ainda é a existência de subsídios para a reflorestação do eucalipto, o que nos leva a acreditar que de facto existem incendiários pagos não se sabendo por quem.

Portugal ardeu de forma incompreensível ao longo dos últimos anos e continuou a arder durante este Verão e Outono sendo agora agravado pela intensidade do incêndio. Varreu tudo: casas, vidas e a esperança de recomeçar. Houve mesmo alturas em que até o asfalto ardia. As chamas arrastaram lágrimas um pouco por todo o lado e colocaram Portugal no centro do mundo.

As consequências Humanas sociais e económicas configuram uma calamidade pública. Esta vaga de incêndios que devorou a floresta portuguesa, não afecta apenas os bens materiais, mas também o ambiente, a qualidade de vida de milhares de pessoas e alteração dos próprios ecossistemas existentes. Foram destruídas diversas cadeias alimentares, que protegem o próprio ser humano, os quais vão demorar dezenas de anos a recuperados.

 

- Embora existam plantas exóticas como é o caso do: milho, da batata do tomate, que, são culturas de importação relativamente recente, ninguém por isso, vai deixar de os cultivar, poi tem utilidade alimentar, no passado o próprio pinheiro não ocupou as vastas áreas onde hoje o encontramos e o castanheiro terá sido introduzido pelos romanos. E também, não será por isso que os dispensamos.

Com isto quero dizer que quem tem gerido este País tem de ter o bom senso de ouvir a opinião de muitos técnicos, principalmente aqueles que nada têm a ver com politicas e ter em conta que os efeitos negativos da eucaliptização são demasiado evidentes na redução dos níveis freáticos; conforme referem os Biólogos: "O eucalipto não é base de nenhuma cadeia alimentar, o seu fruto não é comestível, as suas folhas não formam húmus. São uma monocultura e, do nosso ponto de vista, constituem uma poluição ecológica e evolutiva", pois presentemente após um incêndio o ciclo de crescimento é mais lento que a vegetação autóctone, a qual vai ser abafado, pelos eucaliptos que rebentam logo que são queimados, além de absorverem a água do solo, também não deixam crescer o chamado sub-bosque, isto é, os arbustos e pequenas plantas que formam o substrato da floresta.

Conclui-se, que numa mata de eucaliptos há mesmo só eucaliptos, o que vai originar um menor número de insectos, de aves e de mamíferos, servindo essas matas somente de refúgio para espécies que se alimentam nos campos em redor.

Além do referido, quando há a ocorrência de fogos, produzem uma elevada quantidade de calor, que conduzem a profundas alterações na composição do coberto vegetal, pois causam danos graves nas raízes, dificultando a regeneração vegetativa, e inviabilizam as sementes do solo. Uma outra, não menos importante, tem a ver com a reincidência do fogo nos mesmos locais, com intervalos muito curtos de tempo. Quando a vegetação começa a recuperar dos incêndios anteriores é novamente afectada, voltando a imperar a "terra queimada", com efeitos mais graves o que vai originar maior dificuldade de recuperação da vegetação nativa.

 

O importante será distinguir entre as necessidades de produção florestal e os imperativos da prevenção de um Património que levou milhões de anos a evoluir. Para evitar isso é necessário que os responsáveis se preocupem com o ordenamento floresta em que a monocultura do eucalipto e do pinheiro (plantas resinosas), põem em risco as vidas humanas devido a dar origem a incêndios incontroláveis, e a fácil projecção das suas folhas incandescentes, dão origem a outras ignições a centenas de metros de distância.

Mas, nada melhor que citar o Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, que referia a uns tempos atrás que se os "responsáveis do território não souberem nada da história da agricultura, não souberem da evolução da paisagem, não souberem da ecologia da água e do solo, estarão completamente ultrapassados. Essa formação era boa quando a cidade intervinha no território como o único agente activo, enquanto o resto do território era um agente passivo´´.

 

Deviam começar a pensar na flora autóctone porque, por exemplo, os carvalhos originariam um nível de biodiversidade muito elevado, dando origem a cadeias alimentares de muitas espécies animais, o que deixou de acontecer com as monoculturas industriais (pinheiro, eucalipto). Além disso são espécies que cobriram os nossos bosque durante séculos, (e que os celtas consideravam sagrados).

Não fora o facto de termos o País coberto de pinheiros e eucaliptos - que nada têm a ver com a nossa vegetação autóctone e as consequências dos fogos florestais, seriam bem menos preocupantes. Pode-se comprovar isso, nas poucas zonas onde ainda persistem pequenas manchas desta vegetação ancestral. Nesses locais, encontram-se plantas com enorme resistência ao fogo, com o qual têm aprendido a conviver ao longo de uma evolução natural de milhões de anos. A mais notável é o sobreiro, que consegue rebentar e regenerar rapidamente após o fogo e cuja cortiça funciona como isolador contra o calor provocado pelos incêndios. Também a azinheira apresenta grande capacidade para rebentar pela base das árvores queimadas.

 

A situação só será ultrapassada, se de facto os responsáveis ou governantes conseguirem entender que estamos perante alterações climáticas e que só com o ordenamento florestal é que será possível controlar catástrofes como estas.

Lembro, que a Natureza não se vende e o seu reequilíbrio implica formas por vezes catastróficas, que nós não conseguimos controlar.

 

Joaquim Vasconcelos - 22 de Outubro 2017

 



publicado por nuceartes às 11:56
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