Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora
Quarta-feira, 16 de Julho de 2008
Júlio Baptista (1882-1961), inédito poeta caminhense

Júlio Cândido César Baptista nasceu em Argela em 6 de Novembro de 1882, fez-se bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra em 1911 e logo regressou a Caminha para abrir escritório de advocacia.

Estando ainda fresca a memória da implantação da República, envolve-se activamente na política e como líder da comissão concelhia do Partido Evolucionista ascende a Presidente da Comissão Administrativa Municipal em 1915, ainda que por breve período.
Em 1923, assume o lugar de Conservador do Registo Predial de Caminha - cargo que manterá durante trinta anos - e após o fim da 1ª República, apesar de uma actividade pública discreta, estava referenciado nos círculos oposicionistas moderados ao Estado Novo.
Na memória familiar perdura ainda a sua amizade com as figuras regionais da oposição, com destaque para o advogado vianense António Feio Ribeiro da Silva e o farmacêutico João José de Brito de Vila Praia de Âncora.
 
 
 
Como o mostram manuscritos seus dessa época, para além das leis, foi também em Coimbra que Júlio Baptista ganhou o gosto pela poesia que depois cultivaria ao longo de toda a vida. Romântico por natureza, cedo se fixou no soneto como expressão preferencial da sua veia poética.
A atestar pela sua biblioteca, ainda hoje preservada pela família, leu e admirou Guerra Junqueiro, Gomes Leal e os poetas parnasianos como Luís Osório, Macedo Papança e o brasileiro Luís Caetano Júnior. Demonstrando um admirável domínio da exigente técnica do género dos catorze decassílabos, raramente se aventurando pelos formatos mais ousados que a poesia foi experimentando a partir do modernismo, a sua poesia só ganharia verdadeira força na madurez da meia idade.
Na posse de uma cultura erudita que não desdenhava o contributo popular e usando um vocabulário rico em recursos estilísticos, valeu-se dela como terapia das desilusões políticas, mais do que como panfleto porque, com parcas excepções, não os dava a conhecer - e publicar em ditadura, com a Censura, estava fora de causa pela virulência dos conteúdos. E são estes que são surpreendentes.
Na esteira prestigiosa de Finis Patriae e de Fim de um Mundo, mas sem o eco correspondente porque escrevendo para o silêncio da gaveta do seu escritório, Júlio Baptista vai usar os seus sonetos satíricos como arma política contra todos os poderes autoritários - mais longínquos, o nazi-fascismo de Hitler, Mussolini e Franco; opressoramente perto, o Estado Novo de Salazar, Cerejeira e Dantas Carneiro, Presidente da Câmara de Caminha entre 1931 e 1959.
 
 
 
Após a madrugada libertadora de Abril, a família de Júlio Baptista terá ponderado editar a sua poesia mas razões diversas não o permitiram, pelo que só agora, quase meio século decorrido desde a sua morte e restabelecida a liberdade por que ele tanto suspirou, chegou a hora de fazer sair à luz do dia a sua ainda inédita obra.
A publicação neste Verão de 2008 dos seus sonetos políticos satíricos - a edição é da responsabilidade do Jornal Digital Caminh@2000, conta com o grafismo de Carlos da Torre e inclui um estudo biográfico do político e poeta caminhense pelo autor destas linhas - justifica-se pelo tríptico da Justiça, da Literatura e da História.
Seria injusto deixar na penumbra quem a tal foi forçado por um regime que fazia da Censura arma de repressão e persistência no poder; seria ilegítimo impedir que a poesia agora revelada possa procurar o seu lugar no pedestal da literatura alto-minhota; seria imperdoável desaproveitar a riqueza documental para a história contemporânea de um tão original testemunho político.
 
Paulo Torres Bento
 
 
O ESTADO NOVO
 
Andámos mais de um século para trás!
Princípios liberais e democratas
Estão a ser calcados pelas patas
De um torvo reaccionário pertinaz!
 
Fazer no século vinte o que ele faz
É próprio dos chamados pataratas,
Ou desses que já têm cataratas,
Ou de homens com cabeça de rapaz!
 
Propôs-se construir um edifício
Segundo arquitectura condenada
Até nos alicerces - desde o início!
 
Bonito na aparência da fachada
É ele…Mas contém o grande vício
Que lhe há-de abreviar a derrocada!
 
 
 
UNIÃO NACIONAL
 
A honra do problema resolvido
Pertence a um só homem - Salazar!
Só ele se atreveu a condensar
A chusma de ideais num só Partido!
 
Mas essa solução, tão singular,
Tem um aspecto irónico, fingido;
Por isso é que eu, enfim, dele duvido
E sei que há muita gente a duvidar…
 
Há certos elementos diferentes
Que, unidos, se transformam em reagentes,
Podendo até causar a explosão…
 
República ligada à monarquia
Mal podem conservar-se em harmonia,
O que seria, enfim…aberração!
 
(1930)
 
 
 
O EIXO RANGEU…QUEBROU…DESFEZ-SE…
 
Chegou enfim a hora da Justiça!
Não mais os ditadores, os tiranos,
Os déspotas, os homens desumanos
Dirão que o mundo é deles! Arre, chiça!
 
E tu, ó Salazar, alma enfermiça,
Flagelo deste povo há vinte anos,
Vais ter também agora desenganos,
Não sei se até um gesto de Buiça…
 
Não deves ser poupado e não serás!…
És alvo de milhões de revoltados,
Que já não te consentem marcha-atrás.
 
Nem Deus e Santo António, conjugados,
Te valem; nem o próprio Satanás,
Nem Franco, já de pulsos algemados!
 
Agosto de 1945


publicado por nuceartes às 12:24
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Segunda-feira, 14 de Julho de 2008
A VÂNDALO PASSIVO
A "Feira do Mar" que se realizou em Vila Praia de Âncora, no mês de Julho, permitiu-me fazer uma visita ao forte da Lagarteira, onde tive oportunidade de ver duas interessantes exposições que se localizavam na mesma dependência, embora a temática fosse diferente.
 

 

A curiosidade, levou-me a procurar encontrar a razão de não terem utilizado as outras dependências do forte, de forma a fazer dele a peça emblemática desse evento, porque se trata de uma peça que traduz a história de toda uma comunidade, das suas actividades e da sua defesa. Dali vemos o mar, os pescadores os barcos, e o pulsar da vida piscatória. E dali apercebi-me do abandono das nossas raízes culturais.

A visita tornou-se deprimente porque me apercebi que todas as portas das dependências existentes estavam estroncadas, situação um pouco estranha até porque o forte ainda tem o portão de entrada fechado, embora uma das portadas já não se possa abrir.

É uma vergonha…

 

O quadro tornava-se degradante dando origem a uma série de cenários macabros. As diversas dependências ainda se encontram numa primeira fase de degradação, o que permitiria, se para isso houvesse interessados ou permissão dos responsáveis deste património, de uma recuperação pouco onerosa

Fala-se dos vândalos que têm destruído outros monumentos, no entanto deixar degradar o património Nacional, parece-me que se poderá apelidar os seus responsáveis de "vândalos passivos", pois a passividade permite que a degradação suceda, logo a seguir ao abandono. Mas a visita ao forte tornou-se a exposição que mais me atraiu, pela negativa, porque ali tive a percepção de que a "globalização" tomou conta dos nossos dirigentes políticos, que permitem que uma "peça" daquelas e naquele local se encontre sem qualquer utilidade, deixando que verbas gastas há pouco tempo "sejam atiradas para lixo". Que turismo é que afinal os responsáveis deste país pretendem. Não seria possível dinamizar aquele espaço pelo menos durante o Verão?

Parece que estamos condenados a um turismo de praia, o que torna o Vale do Âncora numa zona turística sazonal. Mas isso é uma falta de visão dos responsáveis deste país. Isso é entregar o nosso país a um futuro incerto

No pouco tempo que passei no interior do forte da Lagarteira compreendi porque é que o meu país não avança e concluí que o património não foge ao ciclo de vida, nasce, cresce, envelhece e desaparece. Mas quando é bem tratado a sua durabilidade é longínqua e a sua recuperação, quando chega a altura de ser feita, é muito menos onerosa.

 

No entanto em Portugal o problema, pois é disso que se trata, é quando a necessidade de renovação é feito sem "objectivos específicos ou então é feito um planeamento de joelho", ou seja, é realizado sem planificação global, muitas vezes, à mercê de interesses privados, à margem das regras definidas pelo conceito de ordenamento.

Custa ver como é que se gasta mal o dinheiro dos contribuintes, neste país. De facto todos teremos de lamentar o abandono a que está votado grande parte do património no Vale do Âncora. Não sei quem são os culpados mas os responsáveis deviam aperceber-se que o turismo de praia é sazonal.

Essas instalações, em vez do abandono a que estão votadas deviam ser dinamizadas turisticamente. No pouco tempo que deambulei no seu interior foram dezenas de pessoas, nacionais e estrangeiros, que procuraram subir às muralhas e de lá tirar fotografias, à praia e a toda a zona piscatória. Os comentários referiam por um lado a beleza do local, por outro o lamento do abandono que esse património estava votado. Por vezes interrogavam-se e referiam não compreender o desrespeito das entidades responsáveis por aquele património.

A globalização não perdoa a ignorância de uma comunidade, e quando sente que está perante "descompensados" culturais avança sofregamente, para impor as suas regras.

 

Joaquim Vasconcelos



publicado por nuceartes às 14:59
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Terça-feira, 8 de Julho de 2008
Exposição itinerante sobre a vida e obra de Miguel Torga

Adolfo Correia da Rocha nasceu em 12-08-1907, em S. Martinho de Anta distrito de Vila Real, e faleceu em 17-01-1995. Foi um dos grandes escritores do século XX, sob o pseudónimo de Miguel Torga.

Nasceu na intimidade de uma família rural humilde e esteve emigrado entre os 13 e 18 anos. De regresso, concluiu os seus estudos secundários, e em Coimbra tirou o curso de Medicina, fixando-se nesta cidade como otorrinolaringologista.
Nas letras notabilizou-se como romancista, poeta, ensaísta, dramaturgo e especialmente como um grande contista. Publicou mais de 50 obras e o seu labor foi premiado tanto no meio nacional como internacional.
 
O NUCEARTES, com o fim de dar a conhecer melhor este vulto da nossa cultura, tomou a iniciativa de trazer até nós a exposição itinerante sobre a vida e obra do escritor.
 
Esta associação espera a visita de todos os interessados, visitantes ou naturais deste Concelho, para assim enriquecerem o conhecimento acerca do escritor e do homem que foi Adolfo da Rocha, para sempre Miguel Torga.
 
Esta exposição estará visitável de 5 a 20 de Julho no salão de exposições do Centro Cívico de Vila Praia de Âncora.
 
 
 
Centro Cultural de Vila Praia de Âncora - 5 a 20 de Julho de 2008
(integrada na X Feira do Livro)
Organização: NUCEARTES
Apoio: Centro Cultural de Vila Praia de Âncora


publicado por nuceartes às 14:26
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