Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora
Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011
POLIS LITORAL NORTE NÃO CONTEMPLA INTERVENÇÕES PRIORITÁRIAS A SUL DO CONCELHO DE CAMINHA

O NUCEARTES – Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora, defende que os POLIS LITORAL deveriam, acima de tudo, projectar o aproveitamento natural da área litoral, especialmente, a restrita orla costeira, dando-lhe uma nova vida, precavendo intervenções comprometedoras e regenerando prioritariamente os focos de degradação manifestos, que são visíveis e preocupantes, que tem sido publicitados e registados em diversos documentos, alguns deles há dezenas de anos.

É urgente que seja dada uma estabilidade à zona litoral, especialmente à mais vulnerável, que é a dunar e que nunca se permita uma intervenção que arraste para o desequilíbrio como a pressão urbana e a implantação de meios tendentes a facilitar os fluxos de utentes incidindo sobre as faixas arenosas.

Considera o NUCEARTES que há outras soluções e prioridades de “dar vida” a estas faixas do litoral do Concelho de Caminha.

 

Pressão urbanistica e betonização da Praia da Gelfa

 

Hoje, toda a gente sabe que o turismo de praia e sol, não passa de um produto sazonal (três a quatro meses no máximo) e não tem um futuro promissor.

Há que pensar na necessidade de aproveitar o nosso clima ameno, diversificando a oferta e orientando-a para uma série de projectos, sem artificialismos, para que não se tornem vulgares, e se revistam de uma marca com características de originalidade própria. O turismo não se pode tornar como uma passagem de modas, como se vê em revistas e nas televisões, pois essas têm um período de atractividade bem efémera.

Área arborizada pelos activistas do NUCEARTES na Mata da Gelfa

 

Estamos numa época em que a natureza, a originalidade, a história, a etnografia e as tradições tem de se manter vivas como identidade de um povo. E, para isso, temos de as saber transmitir aos nossos vindouros, como raízes culturais a perpetuar de geração em geração.

O NUCEARTES considera que é aí, nessas bases, que devem assentar a multiplicidade de propostas culturais a oferecer a quem nos visita.

 

Lixo e abandono na Gelfa

 

 

Ao referirmos Gelfa temos de pensar no Pinhal da Gelfa. Chegou a existir um plano para fazer ressurgir esta área, que foi implementado quase na totalidade, mas foi deixado praticamente ao abandono, tal e qual se encontra na actualidade.

Estavam previstas nesse plano, reflorestação, circuito de manutenção, parque de merendas, circuito da natureza, parque infantil, etc.

O ressurgimento desta ampla área costeira, com o aproveitamento de um rol de vertentes, permitiria transformá-la num pólo de atracção de características ligadas à natureza.

 

Forte do Cão implantado em zona de elevado potencial paisagístico

 

 

Também não nos devemos esquecer do Forte do Cão, referindo as características e a sua localização. Está abandonado e, nestes planos, onde são dados diversos epítetos sonantes, deveria constar, como de primeira necessidade, a sua recuperação. Esta teria de ser a primeira etapa a ser implementada, porque atrairia mais visitantes durante todo o ano e não fragilizaria a orla litoral.

Podemos pensar em novos percursos ligados à cultura, natureza, à etnografia conjugando o Pinhal da Gelfa ao Forte do Cão.

Esta ligação inovadora, a par com outras que poderiam ser estabelecidas, iriam criar um maior número de pólos de interesse, de modo a atrair visitantes durante todo o ano, e não seriam um factor de pressão do cordão dunar, a preservar cuidadosamente.

 

Interior vandalizado e abandonado do Forte do Cão

 

 

Quanto às obras previstas no Polis Litoral Norte, o Ministro do Ambiente declarava em 2009 que estes projectos vinham trazer mais qualidade ambiental e de vida. Declaram ainda que a grande prioridade ia no sentido de atacar os problemas muito graves e complexos de erosão costeira através de obras de engenharia.

Mas estas palavras, apesar de soarem relativamente bem, não traduzem a realidade nem tão pouco uma prática correcta. O que é facto é que a aposta sistemática de se insistir sempre na pressão sobre o litoral nunca irá trazer mais qualidade ambiental nem de vida, pois aumenta a massificação da utilização de zonas sensíveis, com todos os males daí inerentes. As apostas de correcção da erosão do sistema dunar, através de obras de engenharia, dão-nos uma visão do que consta este programa POLIS LITORAL NORTE.

Este programa enferma de uma falta de sensibilidade, pois as prioridades não se reportam ao estancamento da degradação, pois não apostam concretamente na protecção do meio ambiente, que mais ainda se agravará.

E é isso que está a ocorrer neste concelho, neste distrito e neste País. Artificialismo, fogo-de-vista, obras públicas desnecessárias e inconsequentes, mas que pagam campanhas eleitorais e lugares de administração para políticos aposentados.

Pelos planos que se apresentam para desenvolver a recuperação das deficiências que existem, concluímos, que as acções de contenção dos avanços do oceano não serão realizados.

A prática fala por si. Não há nenhuma intervenção de regeneração programada no Concelho de Caminha.

 

NUCEARTES

Fevereiro 2011



publicado por nuceartes às 18:12
link do post | comentar | favorito

Domingo, 13 de Fevereiro de 2011
Atentados no Terreiro de Caminha

Na triste manhã de 15 de Agosto de 1926, um infeliz num acto de loucura atentou contra a vida do insigne cientista caminhense Luciano Pereira da Silva que, três dias passados, não resistiria aos ferimentos falecendo prematuramente aos 61 anos de idade. O infausto atentado aconteceu mesmo à porta de casa do lente coimbrão, o belo Solar dos Pittas Negrões, erguido no gaveto da Praça Conselheiro Silva Torres com a Rua 16 de Setembro. Luciano tinha nascido no lado contrário do Terreiro, na casa por cima da farmácia de seus pais - local assinalado com uma lápide em 1964, quando do centenário do seu nascimento - mas em 1916 decidira adquirir para residência própria o solarengo edifício - o brasão dos Pitta, quase na esquina, foi picado em 1889 - que estava então na posse de um seu tio, António Agostinho Coelho da Silva, depois de ter passado por outras mãos desde a sua construção.

 

 

Um belo exemplo da arquitectura civil do início de setecentos, único em Caminha, datando de 1715 de acordo com Figueiredo da Guerra (O Instituto,74,3,1927,444-447) ou então de 1725, se seguirmos o sólido historiador que foi Manuel Jorge de Avillez que sobre o assunto escreveu fundamentado e bem ilustrado artigo (Caminiana,II,3,1980,93-104). De acordo com este último, foi o palacete mandado levantar pelo fidalgo Brás Pitta de Ortigueira para sua moradia, tendo sido seu construtor António Rodrigues do Valle, oriundo do Sopo, freguesia sobejamente conhecida pela fama dos seus mestres pedreiros. Daí certamente a qualidade arquitectónica do edifício, harmoniosamente inserido na malha urbana da principal praça da vila onde, desde há quase três séculos, impõe a sobriedade de um tardio classicismo e a elegância discreta que lhe dão os frontões em voluta que encimam os cinco balcões da fachada e os dois virados a norte. Figueiredo da Guerra, no citado artigo, chega a adiantar que o autor do projecto terá sido o vianense Manuel Pinto de Vilalobos, um dos grandes engenheiros militares do seu tempo, responsável pelas obras de numerosas fortificações raianas e autor da rigorosa planta de Caminha de 1713.

 

Vivendo nesta casa nos períodos que passava na acarinhada terra natal ao longo de uma década, abruptamente interrompida, Luciano Pereira da Silva teve oportunidade de usufruir do conforto proporcionado por um interior que "havia transformado em cómoda vivenda" (F. da Guerra), onde sobressaía nobre escadaria que ficou na memória dos caminhenses. Aqui passava o Natal e os longos estios, recebendo amiúde amigos e colegas universitários como Aureliano Mira Fernandes, Álvaro Novais e Sousa ou o médico e historiador de arte Reynaldo dos Santos - que veio a Caminha em 1923 estudar a Igreja Matriz - e ainda eruditos de toda a Europa, de que são exemplo os alemães Max Leopold Wagner, Bernard Schaedel e o publicista galego Álvaro de Las Cazas (Correspondência de Luciano Pereira da Silva com Joaquim de Carvalho, Coimbra Editora, 1984).

 

Mais de oito décadas decorridas desde o atentado que veio a vitimar Luciano, eis que novo atentado sucedeu no Terreiro de Caminha, desta vez à senhorial residência que foi do autor da Astronomia dos Lusíadas, comummente chamada Casa das Torres pelo facto de aí terem vivido em tempos mais recentes as sobrinhas e herdeiras do cientista caminhense, de nome Torres. Preservando-se a aparência - a fachada - destruíram-se completamente os interiores e a nobre escadaria, em nome de um tal Hotel de Design & Wine anunciado em grandes parangonas com um indisfarçável novo-riquismo que faz lembrar os anos oitenta do século XX, de má memória para o urbanismo e a arquitectura da vila da Foz do Minho.

 

O mais grave é que, ao reverso do que sucedeu em 1926, este outro atentado está a acontecer com o beneplácito das entidades públicas que deveriam superintender e preservar o nosso património comum. Realizada em 2006 a obrigatória intervenção arqueológica suscitada por um inicial projecto de reabilitação do edifício, daí resultaram recomendações minimizadoras para a obra que se pretendia empreender que passavam, cito, pelo "levantamento e estudo completo do perfil arquitectónico e histórico da casa a restaurar" e, ainda, "no interior da casa, tendo em conta as ocorrências arqueológicas registadas, deverá evitar-se o uso de meios mecânicos..." (Laura Cristina Peixoto de Sousa, Relatório Preliminar dos Trabalhos Arqueológicos na Praça Conselheiro Silva Torres, nº 8-16 e Rua 16 de Setembro nº 1-5, Empatia Arqueologia, 2006).

 

 

Sabemos agora no que deram estas recomendações. Ao que nos dizem, com uma mudança de proprietários e de projecto, do prometido restauro sem a utilização de meios mecânicos passou-se à demolição a camartelo dos interiores do nobre solar. Tudo legal, tudo autorizado pelo Conselho Consultivo do Igespar que não hesitou mesmo em contrariar um parecer desfavorável da Direcção de Cultura do Norte. Em nome de um projecto de arquitectura "moderno" - que poderia fazer sentido se restrito ao logradouro - e de um conceito hoteleiro (os hotéis de charme) que há muito defendemos para Caminha mas que nos países civilizados passa precisamente pela valorização e reabilitação do património, não pela sua destruição. O irónico de toda esta tragédia é que os autores do projecto ainda vêm argumentar que "há que ter cuidados muito especiais com a história e todos os elementos arquitectónicos" (JN, 4-2-2011). Imagine-se se não tivessem cuidados!

 

Paulo Torres Bento, 12 de Fevereiro de 2011

 

Retirado do semanário digital Caminha2000



publicado por nuceartes às 11:40
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Dezembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
29
30

31


posts recentes

Bom Ano 2018

ORDENAMENTO… COLIDE COM S...

Ainda sobre a Bandeira Az...

Movimentação de areias na...

Visita da Direcção do NUC...

Melro d'Água em edição di...

Qualidade da areia no “Mo...

Borrelho de Coleira Inter...

Nota de Imprensa

Proposta de valorização d...

arquivos

Dezembro 2017

Novembro 2017

Agosto 2017

Junho 2017

Janeiro 2017

Novembro 2016

Junho 2016

Março 2016

Janeiro 2016

Outubro 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Setembro 2014

Agosto 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Dezembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Outubro 2011

Agosto 2011

Junho 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Outubro 2010

Julho 2010

Junho 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Junho 2009

Maio 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Novembro 2008

Outubro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Dezembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

links
blogs SAPO
subscrever feeds