Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora
Terça-feira, 28 de Junho de 2011
Será desta?

Qualquer cidadão com o mínimo de bom senso dará razão ao Presidente da República quando apela à revitalização da agricultura e ao desenvolvimento rural. Cavaco Silva aponta assim, um caminho para o combate ao desemprego, à desertificação do interior, à crónica dependência alimentar das importações e ao aumento do peso específico do sector primário no PIB nacional. Apenas se esqueceu de referir que foi no seu consulado, enquanto primeiro-ministro, que se deram as maiores machadadas na agricultura e nas pescas, pagando-se indemnizações para abate de frota pesqueira, de gado e não produção vegetal.

Ao falar-se da agricultura, parte-se do princípio que a questão florestal está implícita, e neste particular, os governos da República tem-se comportado de forma miserável e hipócrita, enchendo-nos os ouvidos com retórica que não praticam, nem criam condições para reverter a degradação do sector, todos os anos martirizado pelos incêndios florestais.

Vale a pena reflectir sobre este flagelo que anualmente consome milhares de hectares de floresta e milhões de euros em meios de combate. Contrariamente ao que as estatísticas governamentais pretendem provar, todos temos consciência que a maioria esmagadora dos incêndios tem origem criminosa e este é, rigorosamente, um problema de segurança pública.

Não pode ser menosprezado pelo facto de ser “apenas” um fogo florestal, que nem sempre são causados por uns “tolinhos” que gostam de atear fogo ao monte. Há interesses particulares e inconfessáveis, que passam invariavelmente sem castigo e que nem sequer conseguem mobilizar a opinião pública para o seu repúdio, tal é o hábito mediaticamente repetido todos os verões. Só quando estão em causa habitações e vidas humanas é que o drama nos comove e nos faz clamar, “filhos da puta, haviam de ser apanhados e amarrados a uma árvore a arder”. E ficamos por aí. Como ficam por aí as declarações pesarosas dos Ministros, Secretários de Estado e acompanhantes de circunstancia, que prometem mundos e fundos, reflorestação, acções preventivas, castigo para os incendiários, mais meios com menos dinheiro e outros milagres do mesmo teor. Tudo mentiras que se apagam com as primeiras chuvas outonais e ninguém vê obra que se preze até à próxima primavera ou verão, quando recomeça o fadário do costume.

O governo recentemente empossado, tem pela frente (se quiser) uma tarefa ciclópica, não só no badalado controlo da dívida pública, mas principalmente no arranque da economia e na resolução dos seus problemas endémicos, dos quais destaco o sector primário, que é hoje uma caricatura de má qualidade, se comparado com a vizinha Espanha.

Daniel Campelo ao ser empossado secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, parece ser um sinal de afirmação do governo, de querer abandonar o papel secundário ou mesmo residual, que atribuíam à Floresta os governos anteriores, nomeadamente os de Cavaco Silva.

 

Brito Ribeiro, retirado de vilapraiadeancora.blogs.sapo.pt

 



publicado por nuceartes às 17:22
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Quarta-feira, 22 de Junho de 2011
O Patelo, do mar para a lavoura do passado

Entre tantas coisas do mundo que nós perdemos (para usar o título de uma conhecida obra do historiador britânico Peter Laslett), conta-se a estreita relação que, num passado ainda relativamente recente, se estabelecia entre os frutos do mar e os trabalhos agrícolas, principalmente no que aos fertilizantes dizia respeito. Mais conhecido, o sargaço ainda hoje é utilizado com esse propósito e, mesmo que em grau reduzido quando comparado com outras épocas, continua a ser apanhado na região minhota, de Moledo à Apúlia. Em contrapartida, outros produtos marinhos que outrora desempenharam um destacado papel económico de ligação entre as comunidades piscatória e rural há muito que caíram no esquecimento. É o caso do patelo.

 

Patelo era o nome dado no litoral alto-minhoto, do Minho ao Lima, a uma espécie de caranguejo mole de forma circular (cerca de 5 cm de diâmetro) que, depois de entrar em putrefacção, era um óptimo fertilizante orgânico para as terras. Comum em toda a costa norte, a sua designação variava, sendo conhecido por pilado do Lima ao Douro e mexoalho ou escasso daí para sul até ao Mondego. Abundante desde o início do Verão até ao mês de Novembro, pescava-se à vista da costa, ou perto dela, à superfície ou até profundidades de 20 metros, utilizando redes próprias de grande resistência.

 

No início do século XX, a pesca do patelo era uma fonte de rendimento certa para os pescadores do norte de Portugal que vendiam o pequeno crustáceo castanho aos lavradores logo na praia — onde iam buscá-lo de carro de bois — ou então levavam-no pelos rios acima para o transaccionar pelas aldeias. O concelho de Caminha não era excepção a este comércio, por vezes vindo de longe como se comprova por notícia inserta no Jornal Caminhense de 23 de Setembro de 1909:"...nos últimos dias entraram no nosso porto algumas lanchas poveiras carregadas de caranguejo mole a que vulgarmente dão o nome de patelo. Essas lanchas subiram o rio Coura até Vilar de Mouros e ali foram descarregadas. Aqueles mariscos são um bom adubo para os campos, sabido como é que as terras da nossa província são falhas de substância calcária, tão útil para a sua fertilidade...". Contudo, o relacionamento entre os pescadores vindos da Póvoa de Varzim e os vilarmourenses, gentes de culturas diversas, não era isento de problemas: "...informam-nos que os tripulantes das referidas lanchas, tendo desembarcado na freguesia de Vilar de Mouros, assaltaram os campos e as vinhas como uma praga de gafanhotos, causando muitos prejuízos pois que até derrubaram e quebraram parreiras. Na administração do concelho foi apresentada queixa contra esta horda de vândalos que é velho costume entrarem nas propriedades para furtarem os seus frutos...".

 

Também para os pescadores da Praia de Âncora o patelo era uma importante fonte de rendimento ao ser vendido aos lavradores de todo o vale do Âncora, contribuindo para minorar a endémica miséria da comunidade piscatória sediada no Portinho. Porém, também aqui havia quem protestasse, quase sempre invocando razões de salubridade, como sucedeu por alturas da terrível gripe pneumónica de 1918. Numa correspondência local para o jornal Correio do Minho, datada de 7 de Novembro desse ano, escrevia-se: "... continua o patelo a ser espalhado pelos campos desta freguesia [Gontinhães], onde dias e dias fica a descoberto! Como isso representa um grande e gravíssimo perigo para a saúde pública, para o assunto chamamos a atenção do digno sub-delegado de saúde deste concelho". Queixas similares provindas de outras freguesias do concelho obrigaram então a Câmara de Caminha a determinar a obrigatoriedade dos depósitos de patelo nos campos serem efectuados à noite e logo cobertos com terra mas o sucesso desta medida terá sido relativo porque ainda continuaram por algum tempo os protestos de teor semelhante.

 

Certamente mais do que os problemas de relacionamento entre agricultores e pescadores, a crescente preocupação com as questões higiénico-sanitárias acabaria por provocar o progressivo declínio do uso do patelo como fertilizante das terras. Para mais, começavam a aparecer no mercado os adubos químicos — desde 1912 que se encontram na imprensa concelhia anúncios da sua venda — de que os mais populares viriam a ser os Nitratos do Chile, de cujos impressivos cartazes publicitários ainda hoje se encontram vestígios pelas antigas estradas nacionais. O patelo, por sua vez, continua a ser farto alimento para os peixes e mesmo na pesca ainda é muito apreciado como isco de qualidade mas nunca mais recuperou o lugar de destaque que chegou a ocupar na economia das zonas costeiras nortenhas.

 

Dr. Paulo Bento, publicado em http://www.caminha2000.com/jornal/n544/cmc3.html



publicado por nuceartes às 11:16
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Domingo, 12 de Junho de 2011
A industria dos incêndios

Ainda não estamos no Verão e os incêndios já começaram.

Este flagelo Nacional, afecta a economia o ambiente, e consequentemente o futuro do planeta. As razões deste problema prendem-se essencialmente aos grandes interesses económicos.

Embora apontem sempre como responsáveis, o elo mais fraco ( os proprietários), pela falta de limpeza, dos montes, esquecem-se que o maior é o próprio Estado.

 

Mas, de facto tudo começou logo após a revolução, quando os responsáveis apontaram como um factor prioritário a eliminação dos guardas florestais; alteraram-lhe o nome e sentaram-nos numa secretária, esquecendo-se que os conhecimentos dos locais onde faziam o seu trabalho lhes permitia apoiarem um planeamento e fiscalização que reduzia o número de incêndios e minimizava os seus efeitos.

Depois, criaram umas associações florestais que recebem verbas de fundos comunitários, quer para reflorestar, ordenar, limpar etc., no entanto, aqui os fogos também continuaram, muitas vezes sem se perceber como(!). O único caso de sucesso que conheço, localiza-se no Vale do Âncora, da freguesia de Riba de Âncora que tem conseguido evitar que os fogos atinjam a área que cuidam, tendo dado origem a uma das grandes "manchas arbóreas do norte do País".

 

Mas, como alguém achou que essa força policial era um empecilho para a economia Nacional, esqueceram-se de colocar na mesa os factores positivos da sua existência, e não descansaram enquanto, não a eliminaram.. Assim começou a preparação do terreno para a indústria dos incêndios. Esta situação levou ao abandono das casas florestais. Este património foi aproveitado no parque Natural do Gerês, para turismo de montanha.

Este património representativo de uma época, em vez de ser abandonado, devia ser aproveitado e integrado num Turismo de montanha, podendo amortizar certos encargos para criação de equipas de sapadores, para apoio e limpeza das áreas florestais.

 

Pouco tempo após a eliminação dessa força policial os incêndios, passaram a ser um factor indissociável do Verão, e todos os anos as áreas ardidas iam aumentando, a não ser que aqueles fossem bastante húmidos.

A primeira fase da "indústria dos incêndios (deflagração), estava concluída, e tinha por trás interesses diversificados como:

- tornar áreas da REN em áreas de construção

- criar áreas de pastos verdes para o gado.

- criar áreas de caça, mais abertas.

- conseguir aquisição de madeira, para venda às celuloses, por preços simbólicos.

 

Como, 99% dos incêndios, têm mão criminosa, conclui-se que foram criadas as condições essenciais para que a industria dos incêndios se continue a desenvolver devido à falta de:

- fiscalização e acompanhamento que era dado todo o ano pelos guardas florestais.

 

Foi criado um vazio que abriu portas para:

- os interesses particulares que circulam à volta da madeira queimada.

- a evolução da industria de combate a incêndios por meios aéreos

 

Avaliada a situação de deflagração lembramos que um incêndio depende das condições meteorológicas (direcção e intensidade do vento, humidade relativa do ar, temperatura), do grau de secura, situação que não podemos controlar, e do tipo do coberto vegetal, pelo que na fase de propagação, tinha de se pensar no ordenamento.

 

Nesta fase, para que a "industria dos incêndios" fosse um êxito, havia necessidade de se criar também condições apropriadas, para uma propagação rápida do fogo. Os responsáveis não tiveram escrúpulos em permitir uma florestação sem ordenamento, permitindo a monocultura de resinosas, quer o eucalipto, quer o próprio pinheiro bravo. Lembramos que na década de noventa, do séc. passado, chegaram a haver cargas policiais, contra elementos de O.N.G. e camponeses, que contestavam a expansão dessa monocultura. Claro, que perante tal atitude, a situação continua agravar-se.

Analisando a situação, parece-me que a função dum guarda-florestal no terreno, era fundamental para atemorizar possíveis incendiários, garantir a vigilância da área que lhe correspondia. Cuidar desse espaço, tornava esta força policial eficiente no combate à deflagração dos incêndios e possivelmente aconselhava a florestação com folhosas. Mas claro que isso não tinha interesse para a indústria de incêndios.

 

Tendo em consideração quer o ano em si, quer o referido atrás, começam a reunir-se as condições ideais para proporcionar mais um ano de grandes incêndios,

Com a contínua falta de ordenamento florestal, a evidência salta aos olhos: o país vai arder porque alguém quer que ele arda. Ou melhor, porque muita gente quer que ele arda. Há uma verdadeira indústria dos incêndios em Portugal, havendo muita gente a beneficiar, directa ou indirectamente.

Conclui-se que de facto nada acontece por acaso, pois :

1 - O combate aéreo aos incêndios em Portugal é TOTALMENTE concessionado a empresas privadas, ao contrário do que acontece noutros países europeus da orla mediterrânica.

2 - Embora existam testemunhos populares sobre o início de incêndios em várias frentes imediatamente após a passagem de aeronaves continuam sem investigação após tantos anos de ocorrência?

3 - Para a venda de equipamento contra incêndios. Etc, etc…

 

Se os responsáveis actuais, não mudarem a sua atitude, a democracia não passará de mais uma filosofia política, que serviu para "engordar os espertos, numa economia de mercado", e tornar Portugal (antigamente respeitado enquanto ditadura), num protectorado europeu depois da implantação da democracia.

 

Joaquim Vasconcelos in "caminha2000"



publicado por nuceartes às 11:52
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